segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Uma corrida política e uma longa história


Aquela era com certeza uma turma estranha que se reunia nas margens do lago: os pássaros com suas plumas arrastando, outros animais com pelo grudado no corpo, e todos pingando, irritados e desconfortáveis.
A primeira questão era, evidentemente, como se secarem: eles estavam reunidos em conselho para decidirem sobre isso e depois de poucos minutos parecia natural para Alice encontrar-se conversando familiarmente com eles, como se ela os tivesse conhecido toda a vida. Na verdade, ela tratava uma longa discussão com o Papagaio autraliano, que no final tornara-se zangado, e falara, “Eu sou mais velho que você, e devo saber mais.” E com isso Alice não podia concordar, sem saber a idade dele, e como o Papagaio recusava-se terminantemente a dizer sua idade, nada mais havia a dizer.

Finalmente o Rato, que parecia ser a pessoa mais de maior autoridade entre eles, bradou, “Sentem-se, todos vocês, e ouçam-me! Eu vou fazê-los secar.” Eles sentaram-se então em círculo, com o Rato no meio. Alice mantinha seus olhos fixados ansiosamente nele,, pois ela tinha certeza que pegaria um resfriado se não secasse logo.

“Aham!” disse o gato com um ar de importante. “Vocês estão todos prontos? Essa é a coisa mais seca que eu conheço. Silêncio na roda, por favor! William, o conquistador, cuja causa foi favorecida pelo Papa, logo submetido pela Inglaterra, que desejava líderes, acostumada à usurpação e à conquista. Edwig e Morcar, os condes de Mercia e Northumbria...”

“Ugh!”, disse o Papagaio, com um calafrio.
“Desculpe-me” interferiu o Rato, carrancudo, mas educadamente. “Você falou alguma coisa?”
“Eu não!” respondeu o Papagaio, rapidamente.

“Pensei que tivesse”, retrucou o Rato. Prosseguindo: “Edwing e Morcar, os condes de Mercia e Northumbria, declararam para ele; e ainda Stingand, o patriótico arcebispo de Canterbury, achou que...”
“Achou o que?”, perguntou o Pato.

“Achou que”, o Rato replicou irritadamente, “é claro que você o que significa.”

“Eu sei o que significa muito bem, quando sou eu que acho”, afirmou o Pato, “geralmente é um sapo ou uma minhoca. A questão é: o que o arcebispo achou?”

O Rato não entendeu a pergunta, mas apressadamente foi em frente: achou que era aconselhável conhecer William e oferecer-lhe a coroa. O procedimento de William no inicio era moderado. Mas a insolência dos seus normandos... como você está indo, minha querida?”, ele continuou, virando-se para Alice enquanto falava.

“Tão molhada quanto antes”, respondeu a menina em tom melancólico, “isso não está parecendo me secar afinal.”

“Nesse caso”, disse o Dodo solenemente, levantando-se, “eu proponho que a assembléia seja suspensa para a adoção imediata de medidas enérgicas...” “Traduza”, gritou o Papagaio.
“Eu não sei o significado de metade dessas palavras, e mais, não acredito que você saiba.” E o Papagaio torceu a cabeça para esconder um sorriso: alguns dos outros passaros riram às escondidas audivelmente.

“O que eu estava dizendo”, retomou o Dodo em um tom ofendido, “é que a melhor coisa para nós secarmos seria uma corrida política.”

“O que é uma corrida política?”, perguntou Alice. Não que ela quisesse mesmo saber, mas o Dodo fizera uma pausa como se pensasse que alguém deveria falar, e ninguém parecia inclinado a dizer nada.

“Bem”, disse o Dodo, “a melhor maneira de explicar isso é fazendo.”
Primeiro ele delimitou a pista de corrida como um tipo de circulo (a forma exata não importa, ele dissera) e então todo o destacamento foi distribuido pela pista, aqui e ali. Não houve o tradicional “Um, dois, três e já!”, mas todos começavam a correr quando queriam e paravam quando queriam, daí não era fácil saber quando a corrida terminava. Entretanto, quando eles já estavam correndo há mais ou menos meia hora, e já estavam quase secos, o Dodo repentinamente gritou: “A corrida está acabada”.

Estão todos se aglomeraram em torno dele, ofegando e perguntando:

“Mas quem ganhou?”
Essa pergunta o Dodo não poderia responder sem pensar muito, e ficou parado por um bom tempo com um dedo sobre a testa enquanto o resto do pessoal ficava em silêncio. “Todos ganharam, e todos devem ganhar prêmios.”
“Mas quem dará os prêmios?”, um coro de vozes perguntou.

“Ora, ela, claro”, respondeu o Dodo, apontando Alice com o dedo, e já toda a turma rodeava a menina, gritando de maneira confusa: “Prêmior! Prêmior!”

Alice não tinha a menor idéia sobre o que fazer, e, em desespero, colocou a mão no bolso e puxou uma caixa de confeitos e distribuiu as balas como se fossem prêmios. Deu na conta exata, um para cada um.
“Mas ela precisa ganhar um prêmio também”, lembrou o Rato.

“É claro”, replicou o Dodo solemente. “O que mais você tem no bolso?”, e se virou para Alice.

“Apenas um dedal”, respondeu a menina tristemente.

“Dê-me”, pediu o Dodo.
Então novamente eles a rodearam, enquanto o Dodo solemente e presenteava com o dedal, dizendo:

“Nós gostaríamos que você aceitasse esse elegante dedal”, e ao final desse pequenino discurso, todos o aplaudiram.
Alice achou a coisa toda muito absurda, mas eles pareciam tão serios que ela não ousou rir, e, como não podia pensar em nada para dizer, simplesmente fez uma reverência e apanhou o dedal, parecendo o mais solene possível.


Texto tirado de “Alice no país das Maravilhas”

Em tempos de eleição... uma história que se confunde com a realidade, se tratando de política, cheia de fantasias e personagens que não existem, ou, pelo menos, se disfarçam. Há quem espera por respostas, por atitudes que trariam um conforto (ajudassem a secar) ou pelo menos uma dica de como chegar lá. Uns enrolam, contam historinhas para boi dormir, outros inventam possibilidades respeitaveis, tão aplicáveis como surreais, na realidade, se não fossem propostas feitas por alguém que não existe (aqui se refere ao Dodo).
Mas aquele mesmo alguém que espera, pouco se importa de que forma tudo isso pode acontecer, sequer sabem o que significa uma opinião. Continua colocando como lideres Papagaios, Ratos, Dodos e outros seres fantásticos que se aproveitam da imaginação e ingenuidade (declaradamante eufêmica) da Alice para manipular e satisfazer as suas próprias vontades, pois são eles que ditam as regras, a forma como deve proceder e quando parar (quando lhes convém).
Além de tudo, é Alice quem dá os prêmios. Tira do próprio bolso o que lhe resta e para receber algo também depende dela mesma e, no final das contas, mesmo se dando conta do absurdo, se abstem do poder da palavra. Em vez de protestar, Alice aceita calada...
Todo tempo políticos são eleitos com o voto do povo que espera ter um retorno pela confiança e a doação do voto. Mas eles pagam tirando do próprio povo aquilo que mal tem: dinheiro, dignidade e esperança. Mas eu diria que o Brasil é como Alice, se abstem do próprio poder, se vende por pouco, acredita em quem não existe, numa capa, farsa...

Mas eu tenho uma coisa a lhes dizer: Alice é uma criança e o que ela vive é um sonho!